Mark Twain

0

MARK TWAIN é não apenas o pseudônimo do escritor e jornalista como também a marca de todas as atividades literárias e empresariais realizadas por Samuel Langhorne Clemens: crônicas e livros de viagens; livros de ficção para crianças, jovens e adultos; ensaios, palestras, conferências; editora, gráfica, investimentos em equipamentos gráficos inovadores através de venda de ações…

Os amigos o chamavam de Sam e, num tratamento formal, as pessoas se dirigiam a ele como Mr. Clemens – mas foi como Mark Twain que ele se tornou nacional e internacionalmente famoso.

Por que Mark Twain?

Aos 22 anos de idade, Samuel Clemens resolve ser piloto de barco no Rio Mississipi, e ouviu, muitas vezes, o grito dos ajudantes de barco ao se aproximarem dos ancoradouros; Yeah, mark twain. Twain vem de Two, dois – e a expressão informava que, naquele local, o rio apresentava ‘duas braças’ de profundidade, ou seja, que a navegação era segura. Ao jovem Samuel a expressão era muito e significativa, guardou-a na memória e passou a usá-la mais tarde como sua própria “marca”.

Voltando ao começo:
Samuel Langhorne Clemens nasceu em 30 de novembro de 1835, numa pequena cidade chamada Florida, no estado do Missouri.  Aos quatro anos de idade, sua família se muda para Hannibal, um pequeno vilarejo às margens do Mississipe.

Muitos anos mais tarde Hannibal será o fictício vilarejo denominado por ele de Saint Petersburg, o qual será o palco das divertidas aventuras de TOM SAWYER, personagem ao qual o autor transfere as recordações de sua própria  infância – suas aventuras de menino, vivendo num vilarejo às margens do Rio Mississipi, a escola, os colegas, as brincadeiras na mata no rio, sua liberdade. E o melhor amigo que Samuel teve nessa época será encarnado por  Huckleberry Finn, Huck , o amigo de Tom Sawyer.

Além desse universo de liberdade e aventuras, o garoto Samuel conhece, em Hannibal, a realidade do escravagismo, na convivência com escravos e donos de escravos, a condição dos negros, específica no Estado do Mississipi, e nos estados do Sul, em geral.

A escravatura deixa forte impressão em sua mente – crítica à escravidão e ao  racismo,  e ideal abolicionista serão temas que ele abordará mais tarde, em vários de seus escritos. De maneira mais próxima e tocante, a questão do escravo será o eixo do livro As aventuras de Huckleberry Finn, livro que mostra ate que ponto a ideologia pode contaminar uma criança, nos dilemas de Huck em relação ao escravo Jim.  

Em 1847, morre o pai de Samuel e a família se viu em grandes dificuldades financeiras. No ano seguinte, ainda garoto, ele abandona a escola e começa a trabalhar numa gráfica como aprendiz de tipógrafo, ofício essencial na época para a publicação de qualquer matéria escrita. O garoto de 13 anos, trabalhando para um jornal, ainda não sabia o quanto esse trabalho seria crucial para a vida cheia de aventuras e sucesso como redator e repórter que ele viria a ter.

Aos 16 anos publica seus primeiros artigos e textos humorísticos no  Hannibal Journal, jornal de seu irmão, Orion.

Aos dezoito, vai trabalhar como tipógrafo em Nova York, Saint Louis, Pensilvânia. Por essa época torna-se um assíduo frequentador de bibliotecas públicas e, através de intensas leituras, aprende mais do que aprenderia se estivesse frequentado escolas.

Volta para o Missouri aos 22 anos de idade, disposto a se tornar um piloto de barco a vapor, meio de transporte vital para as populações que viviam ao longo dos 3.200 quilômetros, às margens do rio Mississipe. Em 1859, depois de estudar detalhadamente esse trajeto do barco, com todos os seus portos e paradas, Samuel Clemens obtém sua licença de piloto. Além de ser uma profissão bem remunerada, propiciou ao jovem um conhecimento in loco das diferentes comunidades, tipos humanos, gente rica e pobre e branca e negra, com a diversidade de falares que alimentariam sua mente e lhe serviriam de material para seus futuros escritos.

A Guerra Civil Americana, ou Guerra de Secessão, que teve início em 1861, interrompeu o tráfego de barcos do Rio Mississipi. Samuel Clemens, perdendo o emprego, alistou-se junto com amigos a um batalhão de voluntários, mas logo o abandonou – certamente, para o jovem Clemens, não fazia sentido lutar num exército que defendia a escravidão. Tampouco poderia unir-se ao exército do Norte e lutar contra seu povo do Sul.

De 1861 a 1864, viaja com seu irmão pelas Montanhas Rochosas e pelas Grandes Planícies, chegando ao estado de Virgínia, onde se desenvolvia a mineração de ouro. Samuel resolve trabalhar como minerador. Fracassa nessa profissão e busca trabalho num jornal do município, o Territorial Enterprise. Escreve para esse jornal divertidos relatos de suas viagens anteriores e será com o artigo Letter from Carson (Cartas de Carson) que ele usará, pela primeira vez, o pseudônimo. MARK TWAIN.

Em 1864, muda-se para São Francisco Califórnia, continua seu trabalho de jornalista, convive com vários escritores.

1865 será o primeiro ano do resto de sua vida. Publica um conto humorístico intitulado The celebrated Jumping Grog of Calaveras County (O célebre sapo saltador do Condado de Calaveras) num semanário de Nova York. Sucesso total, em todos os Estados Unidos.  Mark Twain agora se torna disputado pelos jornais e poderá fazer as duas coisas de que mais gosta: viajar e escrever sobre viagens.

O Havaí será seu próximo destino. Um jornal o envia como repórter para a ilha pertencente aos EU,  e a partir daí Mark Twain se dedicará  aos relatos de viagens, cuja comicidade e ironia encantam de tal forma o público norte-americano que o jornalista começa também a fazer palestras por onde passa, com as quais  conquista mais público (e mais dinheiro). Daí em diante, e por muito tempo, palestras e conferências farão parte de sua vida. Financiado por jornais, ele conhecerá a Europa e o Oriente Médio, a Austrália e a Nova Zelândia. Além dos já esperados artigos para jornais, suas experiências serão contadas depois, de forma especial, no livro As viagens de Huckleberry Finn.

Os inocentes (ou Os ‘caipiras’) no estrangeiro é um livro que ele publica em 1869, um conjunto de cartas que escreveu enquanto realizava essas viagens, contando, de maneira divertida, todas as confusões e gafes ocorridas em suas viagens.

Mais importante do que isso: numa excursão, ele conhecerá Charles Langdon, tornam-se amigos. Langdon lhe mostrará uma foto de sua irmã Olívia Langdon. “Me apaixonei na hora” , dirá Samuel mais tarde. Pois tinha certeza de que ela seria sua futura esposa e realmente irá conhecê-la assim que voltar aos Estados Unidos e em pouco tempo estarão casados.

Casamento feliz esse, o de Samuel e Olívia. Ela, uma jovem requintada, tentando ensinar boas maneiras, principalmente nos jantares que oferece aos amigos, ao seu indócil marido. Ele, encantado com a doçura da esposa,  recebe suas ‘broncas’ com igual docilidade (e humor), como relata em algumas páginas do seu livro DICAS INÚTEIS PARA UMA VIDA FÚTIL. Mas o amor, que dura até e depois da morte da esposa, é revivido no livro DIÁRIO DE ADÃO E EVA, cuja narrativa se inicia de maneira cômica para se tornar um verdadeiro poema de amor entre o homem e a mulher.

Olívia era proveniente de uma família rica e tinha relacionamentos com muitas pessoas dos círculos “liberais”. Através dela, Mark Twain vai travar contatos com abolicionistas, ativistas dos direitos femininos e da igualdade social. Entre esses, vizinha em Hartford, conheceu a escritora

Harriet Beecher Stowe, autora do romance A cabana do Pai Tomás, o livro mais vendido nos Estados Unidos no século XIX, depois da Bíblia, e que despertou um grande clamor em prol da abolição da escravatura.

Hartford, para onde se muda com a Olívia em 1871, será o lugar onde ele constrói sua casa, e onde nascerão suas três filhas. Estas serão as ouvintes e leitoras dos escritos e histórias do pai, que para elas inventará brincadeiras, jogos e histórias em capítulos, bem como um teatro amador representando os fatos do cotidiano da família.

Os livros mais célebres de Mark Twain serão escritos e publicados durante os 17 anos em que viveu em Hartford: As Aventuras de Tom Sawyer (1876); O Príncipe e o mendigo (1881); Life on the Mississipi (1883); Aventura de Huckleberry Finn (1884); Connecticut Yankee in King Arthur’s Court (1889). Apaixonado pela Ciência e Tecnologia, nesse livro (Um ianque na Corte da Rei Arthur), o autor desenvolve uma narrativa espantosa em que o personagem, pertencente à sociedade científica e tecnológica americana, usa seus conhecimentos científicos para introduzir a tecnologia na medieval corte do Rei Arthur.

“Cidadania? Não temos cidadania! Em lugar dela, ensinamos o patriotismo, de que Samuel Johnson dizia, já há 140 ou 150 anos, ser o último refúgio do canalha — e eu sei que ele estava certo. Lembro-me de que quando era menino ouvi repetida muitas e muitas vezes a frase ‘Minha Pátria, certa ou errada, minha Pátria’. Uma ideia absolutamente absurda.” (Esta declaração feita há mais de 100 anos ainda é absolutamente atual).

Decepções e perdas transformaram o bem humorado Samuel Clemens num homem profundamente melancólico e depressivo. Em 1896 morreu sua filha Suzy, de meningite. Em 1906 perde a sempre amada esposa Olívia e. em 1901, a outra filha, Jean. A depressão toma conta de Twain.

Um ataque cardíaco põe fim à sua vida, em 21 de Abril de 1910.

Crítico incansável de todos os tipos de opressão no mundo e em seu próprio país, Mark Twain sofreu a censura em muitos de seus escritos e adquiriu muitos inimigos, sobretudo no que se referia ao imperialismo norte-americano. Muitas vezes chamado “traidor da pátria”, tinha que defender-se nos jornais.  No entanto, ninguém jamais fez calar essa voz que lutava contra a hipocrisia, a ganância,  o imperialismo, o racismo – e sempre a favor da liberdade, da Ética, dos direitos humanos. 

Mark Twain

Share.

About Author

Comments are closed.