Tom Sawyer

0

Um livro polêmico

Tom Sawyer” e ‘Aventuras de Huckleberry Finn’ são livros ícones da literatura americana, embora seu autor, Mark Twain tenha escrito muitos outros livros – alguns ainda com esses dois heróis, em outras aventuras.

<
Ninguém se engane pensando que são apenas ‘literatura infanto-juvenil’. Apesar de muito divertidos, os livros apresentam uma sátira da sociedade americana, das autoridades, das leis, dos costumes, do sistema escolar, da esperteza de uns e ingenuidade de outros.

Você pode ler esses livros apenas para se divertir com as travessuras e invenções desses meninos que vivem numa cidade pequena, perto de uma mata e das margens do rio.  Você pode fazer uma leitura mais profunda e refletir sobre as questões  sociais, os preconceitos, a ideologia, presentes no texto, mas numa narrativa aparentemente ingênua – o que ela não é. E espantar-se com o fato de, em pleno século 21, a humanidade ainda luta com os mesmos problemas: desigualdade social, preconceitos, falsas ideologias.

As histórias se passam na região Sudeste, banhada pelo rio Mississipe e seus afluentes, região na qual o autor nasceu e passou a infância.

Tom Sawyer é o relato da infância do próprio autor, vivendo descobertas e aventuras num vilarejo às margens do rio Mississipe. O autor confessa que nem todas essas aventuras ele viveu de verdade, algumas ele inventou. Aliás deixou que fossem inventadas por Tom Sawyer, que lia muitos livros de heróis e bandidos, e depois queria revivê-los junto com seus amigos, principalmente Joe Harper e Huckleberry Finn, ou simplesmente Huck. Assim, eles lutavam como Robin Hood, ou como piratas, aos quais davam os nomes mais amedrontadores. O lugar onde essas lutas se davam era a mata, às margens do rio, onde depois mergulhavam e faziam estripulias.

Nesse ir e vir, durante o dia ou à noite, viam-se às vezes envolvidos em situações perigosas e atemorizantes que acabam por deixar desesperados todos os moradores do vilarejo.  Numa dessas aventuras noturnas, Tom e Huck vão se envolver num conflito realmente medonho, com o qual, mesmo uma pessoa adulta, teria receio de lidar. Fogem aterrorizados, e aterrorizados passam os dias sem alegria e as noites sem dormir. Tentam esquecer, e por algum tempo voltam às suas aventuras, na mata, no rio. Mas a história não acabou, o perigo voltou, eles dão obrigados a tomar uma decisão; fazer ou não fazer  a coisa certa?

Depois, o tempo passa –  mas não passa a vontade de se atirarem em outras aventuras, cada vez mais arriscadas. Como não vou contá-las, passo a apresentar  os

 PERSONAGENS

TOM SAWYER

Vive numa boa casa, a tia é bondosa e o trata como filho; frequenta a escola, a catequese, os ofícios religiosos. Seus melhores amigos são Joe Harper, colega de escola, e Huckleberry Finn – Huck – o vadio da cidade, com o qual todas as crianças, inclusive Tom, são proibidas de conversar. Uma das coisas que Tom ama era os livros de aventuras, de índios e piratas, de Robin Hood e seu bando.

HUCKLEBERRY FINN ( Huck)

Huck, “o vadio da cidade”, era totalmente marginalizado. Vivia de um lado para o outro e todos fingiam que ele não existia, ninguém se preocupava com sua vida – a não ser as mães que proibiam seus filhos de se aproximarem dele.
Detestado e temido por todas as mães da aldeia, pois era desobediente, ordinário e mau, mas, sobretudo, porque todos os meninos o admiravam e se deliciavam em sua companhia. Tom, tal como os outros, invejava a vida ‘desprezível’ de Huckleberry e tinha ordens estritas de não brincar com ele, por isso brincava sempre que tivesse ocasião… Huckleberry ia e vinha à vontade, dormia nos degraus das portas ou dentro de um barril desocupado; não tinha de ir à escola, nem à igreja, nem receber ordens de ninguém.” Pescava, nadava, andava descalço, não precisava tomar banho, praguejava,enfim: “Tinha tudo aquilo que torna a vida preciosa!”

 TIA POLLY

É uma mulher muito bondosa que cria o sobrinho Tom com o carinho de uma mãe. Apesar de gostar muito dela, Tom vive a aprontar confusões ou a sumir de casa, deixando-a muito aflita e angustiada. Aceita, ou finge aceitar as mentiras fantasiosas que ele inventa como desculpa para as suas            e ausência às aulas.. Mesmo assim, ela se preocupa muito, pois não sabe se está fazendo o correto. “ Ele tem o diabo no corpo, mas é o filho de minha irmã que morreu, e não tenho coragem de castigá-lo. Sempre que o deixo escapar, pesa-me a consciência; se bato nele, me dói o coração.”

JOE HARPER

O amigo predileto de Tom era Joe Harper. Os dois meninos eram amigos fiéis durante toda a semana, e adversários aos sábados.

 

BECKY Thatcher

Uma linda garota, pela qual Tom é apaixonado. 50 51

O PROFESSOR

Como era costume na época, o melhor método do professor era surrar os alunos com chibatadas. Tom era uma de suas vítimas prediletas, pois estava sempre faltando às aulas ou chegando atrasado.

A VIÚVA DOUGLAS

“…loira, bonita, de uns quarenta anos, generosa e boa pessoa, cuja casa na colina era o único palácio na cidade e a mais hospitaleira e festeira…:

A viúva será uma personagem importante nesta história.

INJUN JOE

Um bandido, ladrão e assassino, do qual Tom e Huck têm muito medo.

 TIO JAKE

O “criado preto” que acolhe Huck quando este não tem o que comer nem onde dormir.

Nota: Provavelmente um escravo, que toma conta das coisas de seu dono. Mark Twain nunca utiliza a palavra ‘escravo’, talvez porque lê todas as suas histórias para suas filhas e filhos, e não quer falar sobre escravidão. Outra personagem, Jim, é o “negrinho da Srta. Becky”.

 

MUFF POTTER

Acusado de um assassinato, vai ser julgado e enforcado se provarem que é o assassino.

><><

Por abordar o tema da ESCRAVIDÃO  e descrever com precisão a sociedade sulista, às margens do Mississippi, esta obra foi, e ainda é, tema para grandes debates. Há pessoas que dizem que o livro é racista. Um absurdo, pois o próprio autor foi um abolicionista e não há nenhum momento no livro uma frase que incentive ou que apoie a escravidão.

A palavra nigger (que pode ser traduzida como ‘negro’), que era usada na época para se referenciar aos escravos, é um alvo dessas críticas. Utilizá-la, hoje, é algo impensável, pela carga de ódio que ela carrega. É um termo muito pejorativo para descrever um negro atualmente. Porém, naquela época, era a forma comum, a mais utilizada, não havia essa carga de ódio embutida. Isso levou a editora NewSouth Books, em 2011, a publicar uma edição de ‘As aventuras de Huckleberry Finn’ onde a palavra nigger foi substituída por slave (escravo). Isso não faz sentido, pois a narrativa é um retrato da sociedade dos EUA no século XIX e isso muda a escrita do autor, um crime à sua obra. Além de ser uma forma ineficaz de se redimir das atrocidades cometidas aos negros no passado.

Mark Twain não utilizava a palavra nigger, considerada pejorativa pelos intelectuais, porém suas personagens são pouco instruídas, pessoas simples, do campo. Na época em que foi publicado, as mentiras contadas por Huck também foram alvos de críticas, por se tratar de um mentiroso que sempre consegue se dar bem.

Não existe nenhum momento de violência a um negro durante toda a narrativa. O tom é de respeito para com os escravos, que são “respeitados” e “bem tratados” (essas palavras não fazem sentido, já que são escravos, porém não há o ódio contra eles, é isso que deve ser frisado). Há uma pessoa ou outra que fala mal sobre os negros, porém isso é um reflexo da sociedade escravocrata.

“As pessoas vão me chamar de abolicionista sórdido e vão me desprezar por ficar calado — mas não faz mal. Não vou contar de todo jeito não vou voltar pra lá.” p. 55

Share.

About Author

Comments are closed.