O velho que lia romances de amor

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Este livro é um verdadeiro épico, formatado num romance com refinada simplicidade. Em sua grandeza temática pode  ser comparado com Moby Dick, na luta entre o homem e a fera. Mas, ao contrário de Ahab, que odiava a baleia, Antônio Bolívar, o protagonista de “O velho  que lia romances de amor”, ainda tenha que matá-la, ama e compreende a onça feroz, assim como ele ama a selva e todos os seres que a habitam.

O autor chileno, Luís Sepúlveda viveu alguns tempos na Amazônia entre os índios shuar, com os quais adquiriu profundo conhecimento sobre a selva,  com sua beleza e desafios; e sobre seus habitantes, com sua coragem e capacidade de sobrevivência.

São esses conhecimentos que o autor transfere para o seu personagem, Antônio Bolívar que, desde muito jovem, passou a viver na Amazônia e também viveu por muito tempo com os shuares, que lhe ensinaram   todos os segredos e armadilhas da Amazônia profunda – suas plantas e seus animais –  num território fronteiriço entre Colômbia e Peru. Embora sejam amigos, ele percebe: Sou como eles, mas não sou um deles. Embora sua presença na tribo seja uma alegria para eles, sabe que ali não é sua morada.

Perto de um povoado,  ele tem sua cabana.  El Idílio é  uma faixa de terreno entre o rio e a selva brava. Ali há um alcaide (para receber impostos), e alguns moradores; mais  gente que vai e vem, gente que desembarca no pequeno cais. Duas vezes por ano, ali atraca um barco no qual chegam o funcionário dos correios e um dentista que atende a pequena população.

Tendo aprendido com os indígenas todos os meios de sobrevivência na selva, passa temos embrenhando-se por ela, colhendo ervas e caçando pequenos javalis, para seu próprio consumo e para os moradores e forasteiros. Não vende a caça, mas a troca  por  objetos ou víveres, somente coisas das quais realmente necessita para viver.

 Quando tem seu tempo livre, lê histórias de amor.

Pois um dia, por acaso, descobriu que sabia ler. Numa cédula eleitoral conseguiu soletrar: se-nhor can-di-da-to. Daí por diante pegava jornais e todo material de leitura que encontrava, mas nada lhe interessou, até descobrir os romances de amor. Encantou-se tanto com eles, que pediu ao dentista que  lhe comprasse sempre que fosse ao povoado. Os livros se tornaram uma dádiva preciosa, lendo e relendo devagar cada um deles, duplamente encantado: com as histórias de amor e com a beleza que existe na própria linguagem.

Já velho, Antônio Bolívar não se arrisca mais às cansativas e perigosas aventuras na selva profunda.  Passa a ter uma vida serena aprazível em sua cabana. Pela manhã, pesca os peixes que irá fritar com bananas verdes para o seu desjejum. Tem carne seca para seu almoço e sempre alguma fruta. A maior parte do tempo passa lendo entretido com seus romances.

Essa vida tranquila e aprazível vai ser subitamente interrompida quando chega ao povoado a notícia uma grande onça que anda caçando e matando os habitantes dos arredores.

Matar a fera torna-se uma questão de sobrevivência, pois ela está cada vez mais próxima e mais ousada. E essa perigosa tarefa é assumida por Antônio Bolívar, pois ele é o único homem a conhecer os labirintos da selva e os hábitos de seus animais.

Daí em diante, furando os caminhos da selva interior, começa uma fabulosa caçada em que o homem fareja o animal e o animal fareja o homem, cada um com seus instintos e propósitos. Nessa perseguição paralela reside o fator épico da história. Dois adversários da mesma estatura; ela tem o instinto e a força bruta; ele tem seus instintos e uma arma de fogo.

Assim passam dias, a onça escolhendo os caminhos – o caçador sem compreender o que ela realmente pretende. O que Antônio Bolívar mais deseja é que tudo se acabe depressa, que ele possa realizar seu intento e voltar para o aconchego de sua cabana e voltar a ler seus livros – os dramáticos romances em que os amantes têm que sofrer muito, superar enormes obstáculos e perigos, para poder enfim estar juntos, num final feliz que deixa o velho com o rosto ensopado de lágrimas, quase cego de tanto chorar.

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